O Fantasma na Máquina
Dia 68 — Halgerd, Complexo do Templo do Primeiro Circuito
A ameaça não era apenas metal e cerâmica; era uma falha na própria realidade. O Robô Assassino não se movia apenas pelo espaço, mas através dele, piscando como uma transmissão corrompida.
Singular, uma sombra letal em seu traje de combate, foi o primeiro a testar a defesa do inimigo. Ele avançou, a lâmina do adepto cortando o ar num arco perfeito — apenas para encontrar o vazio. A criatura piscou, sua forma tremeluzindo para fora da existência por um milissegundo, o suficiente para que o golpe passasse inofensivo através de onde deveria haver metal.
— Difícil matar o que não está lá — comentou 7, os olhos brilhando com energia psíquica sob o capuz. Ele estendeu a mão, não para golpear, mas para roubar o calor. A termocinese envolveu o droide, o metal estalando sob uma camada súbita de gelo.
Remy, com a tenacidade de quem já encarou a morte de perto, engajou com seu bastão. O impacto foi pesado, mas novamente, a realidade se dobrou. O droide cintilou, uma silhueta de "ruído" estático, e o golpe atravessou seu chassi. Em um movimento fluido e antinatural, a máquina ignorou a gravidade, recuando para o teto e descendo sobre eles. Suas garras brilharam, e mesmo à distância, o ar se rasgou. Singular e Remy sentiram o corte profundo, a energia lacerando armaduras e carne como se não existissem.
Halri, posicionado na retaguarda, disparou seu fuzil modificado. O feixe de energia foi preciso, mas o droide queimou suas reservas para desmaterializar o projétil.
— Ele está gastando energia para fugir da gente! — gritou Halri, recarregando.
A segunda rodada foi um borrão de violência desesperada. Singular impulsionou-se num salto de dez metros, arremessando sua faca de adepto com a precisão de um cirurgião. A lâmina voou, mas o droide, zumbindo com o esforço de seus capacitores de fase, desapareceu novamente. 7 manteve a pressão, o frio absoluto tornando as juntas do assassino lentas e quebradiças.
Foi Remy, ombro a ombro com Singular, quem encontrou a abertura. Arremessando sua própria arma, ele pegou a máquina no momento exato em que seus sistemas de fase falharam por exaustão. O impacto foi brutal. Metal amassou.
Mas o assassino não caiu sem cobrar seu preço. Recuando trinta metros em um borrão, ele disparou uma salva final de suas garras energéticas. Singular e Remy foram ao chão, silenciados, o sangue manchando o piso metálico de Halgerd.
Halri não hesitou. Enquanto disparava o tiro de misericórdia que fez o droide vacilar, 7 canalizou uma última onda de entropia, congelando a máquina até que ela se estilhaçasse em sucata inerte. O silêncio voltou ao corredor, quebrado apenas pela respiração ofegante de Halri e pelos bipes de emergência dos trajes.
O especialista correu. Lazarus Patches foram aplicados, agulhas de Lift injetadas.
— Não morram no meu turno! — praguejou Halri, vendo os sinais vitais de Singular e Remy estabilizarem e subirem.
Enquanto os combatentes se recuperavam, tontos e feridos, o espólio foi recolhido. Um cartão de acesso nos destroços do assassino. Mas o verdadeiro prêmio estava na sala ao norte: uma Enfermaria.
O Autodoc central estava ativo, mas sua lógica corrompida zumbia ameaçadoramente. Halri, com seus muitos relógios tilintando nos braços, tentou um reset. Falhou.
— Essa coisa ia amputar nossas cabeças se tentássemos usar — diagnosticou ele, sacando as ferramentas. — Mas as peças são boas.
Ele desmontou a máquina cirúrgica como um abutre tecnológico, extraindo Integrity Stims valiosos e um tanque de anestésico que seu olhar técnico já imaginava como uma granada de gás improvisada.
A porta ao sul revelou o próximo desafio: um refeitório transformado em casamata. A primeira abordagem foi tática e silenciosa. Remy abriu a porta flanqueado por Singular, ambos batedores furtivos camuflados por seus trajes de combate. Singular conseguiu se fundir às sombras, indetectável, mas os sensores dos robôs travaram em Remy.
— Merda... — sibilou Remy entre dentes cerrados, o corpo teso aguardando o impacto.
— REMY! — a voz de Singular cortou o comunicador.
Antes que os disparos pudessem rasgar o ar, a velocidade sobrenatural de Singular entrou em ação: ele fechou a porta num reflexo, o metal vibrando violentamente com o impacto dos tiros que explodiram do outro lado, milissegundos atrasados.
A dupla recuou, ofegante, avisando o grupo pelo rádio. Todos aguardaram em tensão, esperando que os robôs iniciassem uma perseguição, mas as máquinas permaneceram entrincheiradas, recusando-se a abandonar sua posição defensiva.
Diante do impasse, o grupo voltou à porta com um novo plano. Singular, recuperado e com a máscara escondendo a dor, abriu a passagem novamente. Um disparo rápido para atrair a atenção, um dano leve na blindagem inimiga, e ele recuou para a escuridão do corredor.
A porta ficou aberta. A armadilha estava armada. O grupo, ferido mas vivo, preparou suas armas para o que viria a seguir.
Notas de Lore & Tech:
- Andróide de Fase: Tecnologia avançada (provavelmente Mandato ou experimental) capaz de "blinkar" para evitar dano físico, mas vulnerável ao esgotamento de energia e ataques psíquicos (Termocinese).
- Autodoc: Tecnologia médica autônoma, rara e valiosa, mas sujeita à corrupção de dados ao longo dos séculos de Silêncio.
- Integrity Stims: Fármacos pretech superiores aos kits médicos convencionais, capazes de cura rápida sem o estresse sistêmico usual.